Depressão na Adolescência


Texto por:

Carolina Rodrigues Cavalcante

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Antigamente, a depressão era compreendida como um transtorno predominantemente adulto. Sabe-se, hoje, que a depressão na adolescência está associada a prejuízos escolares e sociais, além de problemas de saúde no futuro

Epidemiologia – os números da depressão em adolescentes.

A distribuição populacional de depressão unipolar aumenta, de modo geral, com o avanço da idade. Assim, enquanto na idade escolar o transtorno atinge de 2-3%, sendo igual para meninos e meninas, na adolescência passa a atingir de 4-8%, duas a três vezes mais frequente em mulheres do que em homens. Na faixa dos 18 anos de idade, um a cada 9 adolescentes pode apresentar quadro de depressão maior.

Além disso, estudos realizados com crianças e adolescentes em idade escolar indicam que cerca de dois terços dos jovens depressivos apresentam algum transtorno comórbido (associado). Os mais comuns são o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtorno Opositivo Desafiador e transtornos de conduta.

O que causa a depressão em adolescentes?

A depressão é um transtorno complexo, sendo produto da interação entre vulnerabilidade genética e estressores ambientais. Mecanismos neurocognitivos e neuroendócrinos ainda pouco esclarecidos também parecem estar envolvidos na etiologia da depressão.

  • Componente genético:

 

Embora as variantes de genes associados à depressão ainda estejam sendo identificadas, sabe-se que um histórico familiar em primeiro grau triplica o risco de desenvolvimento de transtorno depressivo. Fatores hereditários parecem ser ainda mais importantes em adolescentes do que em crianças.

  • Componente psicossocial:

 

Maus tratos, abuso, negligência, morte dos pais, doença psiquiátrica dos pais, abuso de substâncias, conflito entre pais e filhos, falta de coesão familiar, discórdia familiar crônica, fracasso acadêmico e pobreza extrema podem ser fatores de risco para o desenvolvimento de depressão em adolescentes. O efeito de estressores crônicos parece preponderar sobre os eventos agudos/ episódicos

Quais são os sintomas de depressão na adolescência?

O diagnóstico de depressão na adolescência é baseado na presença de pelo menos 5 dos sintomas listados, por um período de 2 semanas:

  • Humor deprimido ou irritável;
  • Perda de interesse ou prazer nas atividades cotidianas;
  • Perda ou ganho não-intencional de peso;
  • Insônia ou hipersônia diárias;
  • Agitação ou retardo psicomotor;
  • Fadiga ou perda de energia diárias;
  • Sentimentos de inutilidade ou culpa inadequada;
  • Capacidade reduzida de pensar e se concentrar;
  • Pensamentos recorrentes de morte.

 

Pacientes no fim da adolescência com formas mais graves de depressão costumam exibir perda de prazer nas atividades diárias, escolares e de lazer, lentificação ou retardo psicomotor grave, crenças absurdas e irreais (delírios) e uma sensação de desesperança.

Em adolescentes podem ocorrer comportamentos negativos ou antissociais, uso de álcool e substâncias ilícitas, agressividade, relutância em cooperar com questões familiares e isolamento dos pares. Também podem apresentar preocupação reduzida com a aparência pessoal e demonstrar maior sensibilidade à rejeição pelos pares e em relacionamentos românticos.

Não existe um teste para depressão que permita fazer o diagnóstico. O diagnóstico depende de avaliação clínica por médico através de anamnese, ou seja, de detalhada história clínica.

Os transtornos depressivos em adolescentes costumam ser episódicos, embora, durem cerca de um ano. Seu início pode ser silencioso, permanecendo não identificado até o prejuízo das atividades sociais e acadêmicas.

 

Tratamento

O tratamento de depressão em crianças e adolescentes é baseado em farmacoterapia com Fluoxetina ou outro inibidor seletivo da recaptação de Serotonina (ISRS), Terapia Cognitiva e Comportamental (TCC) e Terapia Interpessoal.

  • Farmacoterapia:

O tratamento medicamentoso preferencial inclui inibidores da recaptação de serotonina, como a Fluoxetina (aprovado pela Food and Drug Administration (FDA)). Esses fármacos aumentam a concentração extracelular de serotonina – um neurotransmissor relacionado ao humor, sono, saciedade, atividade sexual e outros – normalizando sua disponibilidade para receptores neuronais.

Possíveis efeitos colaterais desse medicamento são dores de cabeça, sintomas gastrointestinais, sedação e insônia, que costumam ser mais frequentes nos primeiros três dias de tratamento. Na presença de tais sintomas, o tratamento deve ser discutido com um médico psiquiatra e adaptado ao paciente.

É importante lembrar que os antidepressivos não causam dependência ou qualquer tipo de incapacidade. Também não têm ação estimulante, como fazem as drogas ilícitas. São medicamentos considerados “leves”, que atuam gradualmente na normalização de hormônios, neurotransmissores e outras alterações que estejam produzindo os sintomas depressivos.

Alerta da FDA: Síndrome da piora inicial.

A FDA institui um alerta para todos os antidepressivos, indicando um risco de  piora inicial entre crianças e adolescentes no início do tratamento com esses medicamentos. Esses sintomas devem se dissipar com a continuidade do tratamento e não justificam a não adesão à terapia medicamentosa, cujos benefícios superam largamente os riscos da piora inicial.

 

  • Terapia Cognitiva e Comportamental (TCC) – constitui uma abordagem ativa, focada na análise dos pensamentos que desencadeiam emoções e comportamentos problemáticos e na formulação de pensamentos e comportamentos adaptativos.
  • Terapia Interpessoal – constitui uma abordagem breve, com tempo limitado e focada no presente; o terapeuta buscará aliviar o sofrimento através da melhora do funcionamento interpessoal do indivíduo, melhorando sua capacidade de comunicação e ajudando-o a usar seu suporte social.

Referências bibliográficas:

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª Ed. (DSM-5).

Kaplan & Sadok – Compêndio de Psiquiatria: Ciência do comportamento e psiquiatria clínica. 11ª Edição, 2017.

Depression in Childhood and Adolescence – Barbara Maughan PhD; Stephan Collishaw DPhil; Argyris Stringaris MD, PhD, MRCPsych.

Terapia Cognitiva Comportamental – Ana Catarina Dias < http://www.psicologos-lisboa.com/pages/CBT.php>.

Terapia interpessoal: teoria, formação e prática clínica em serviço de pesquisa e atendimento em violência. Rodrigo Almeida Carvalho, Mariana Cadrobbi Pupo, Marcelo Feijó Mello. Revista Brasileira de Psicoterapia. 2011. 13(3): 14-25.

Depressão e qualidade de vida em jovens de 18 a 24 anos no sul do Brasil (Depression and quality of life in young adults aged 18 to 24 years in southern Brazil) – Mariane Ricardo Acosta Lopez , Juliane Portella Ribeiro , Liliane da Costa Ores, Karen Jansen , Luciano Dias de Mattos Souza , Ricardo Tavares Pinheiro, Ricardo Azevedo da Silva.

 

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